Páscoa
O aroma dos soalhos lavados durante a semana ou o cheiro a cera fresca, colocada de véspera, rejuvenesce o velho casario que se espalha de uma ponta à outra da aldeia a contrastar com as casas de construção recente, de materiais modernos e de fácil manutenção e limpeza.
Nas ruas nem a chuva que chegou a ameaçar uma forte tempestade foi suficiente para impedir que as pessoas se aglomerassem à frente das casas, aguardando, impacientemente a sua vez. Algumas das casas, as mais antigas, com o tradicional pátio à portuguesa coberto de giestas floridas de onde emana um fresco e agradável perfume que nos faz regressar aos sonhos de miúdos quando as aldeias ficavam completamente cobertas dessa planta, de lés a lés, para que a procissão não sujasse os pés na lama das ruas ainda por calcetar, ou na velha calçada à antiga portuguesa enfeitada por uma passadeira de um verde e branco intenso.
As famílias reúnem-se. Os filhos da terra regressam à sua aldeia natal para o beijar da Cruz em cada casa.
Aqui se nota um avolumar de pessoas que transmite o verdadeiro êxodo que a aldeia tem sofrido nos últimos anos. Algumas das casas com um casal de velhos, de olhos lacrimejantes e doridos pela solidão, vestidos a rigor, ajoelhados para receber a Cruz de Cristo. E os que, sós, depois de uma perda irreparável de um dos cônjuges e com a família longe, no estrangeiro, quase pedem desculpa por estarem tão sós a receber a Cruz, numa casa onde já viveram cinco, seis, oito, dez pessoas. Como se fosse sua a culpa da solidão.
Numa casa portuguesa, com certeza, pão-de-ló, queijo e vinho sobre a mesa para arregalar os olhos da comitiva. E amêndoas para a pequenada. E o folar para o senhor prior. E a alegria, a alegria de ter uma aldeia cheia de gente, ainda que algumas casas estejam quase vazias.
É a maldita desertificação. Aquela que nós vamos fazendo dia a dia quando saímos à procura de melhor trabalho e da promessa de dias melhores para os nossos.
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