quarta-feira, 26 de março de 2008

O bufo

Acabei de chegar de um casamento e, confesso, perante a intimação mais recente da Direcção Geral das Contribuições e Impostos, apelando a que cada cidadão seja um fiscal, sinto-me obrigado a delatar aqui as quantias que os noivos gastaram, o número de convidados, o restaurante do copo de água, o número de fotos que o fotógrafo tirou e a quantidade de vestidos super chiques que se cruzavam ante o olhar de desdém das suas donas.
E tenho que ser eu a tratar desta delação para fazer um favor aos meus amigos noivos. É que no meio de tantas coisas interessantes que, enfim, teriam que fazer hoje à noite, não teriam tempo para preencher o questionário. E talvez nem se tivessem dado conta se lá no restaurante havia outras festas, ou não. Bem, festas, festas devem estar eles a ter pelo corpo todo. Claro que só estão nisso, porque eu me encarreguei de fazer de bufo. Sou amigo. Deles e do fisco. E do país. Que patriótico me sinto!
Deparo-me, no entanto com uma dificuldade: pergunta aqui quantos preservativos é que foram usados na noite de núpcias… (deve ser para apanharem as farmácias, também).
Telefonei e fiquei a saber que não compraram preservativos. Apenas Aspirina, por causa das dores de cabeça da minha amiga.
O questionário do fisco falha nesta questão. É grave! Não pensaram em tudo.
Amanhã vou a um funeral. Consta-se que já intimaram o defunto a preencher um questionário sobre as despesas com o funeral. E se não responder vai pagar uma coima.
Enfim, a vida não está nada fácil. Nem a morte, pelos vistos.

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quarta-feira, 28 de março de 2007

IVA vs IRS

O ministro das finanças, Teixeira dos Santos, admitiu hoje que a haver uma baixa de impostos ela começará pelo IVA. Compreendo os argumentos, foi o primeiro imposto a ser aumentado.
Mas não posso estar mais em desacordo com o ministro. Claro que aqui não coloco as razões orçamentais que desconheço e poderão, também elas, estar na base desta escolha.
E acrescento que, podendo parecer contra-senso, temos sido fortemente penalizados pelo facto de termos o IVA mais alto da Europa. Porque é que, então, preferia que o ministro escolhesse outro imposto, o IRS por exemplo?
A razão é simples: se o IVA baixar dois pontos percentuais não vamos notar nada na nossa prática diária pelo simples facto desse decréscimo vir a ser aproveitado pelos comerciantes que se têm queixado de ter as suas margens esmagadas pela crise e pela forte concorrência de leste. Na prática continuaremos a pagar o mesmo valor pelo pão, pelo almoço, pela roupa, pelo leite e por aí fora.
Por outro lado o IVA é um imposto cego, isto é, atinge todas as classes sociais por igual e é penalizador para o consumo. Ora se isto pode ser um aspecto negativo porque pode refrear o consumo privado e, por conseguinte, colocar em risco a retoma económica, não deixa de ser verdade que penaliza quem mais consome, logo as classes mais desafogadas.
Uma baixa no IRS é mais visível para todos porquanto afecta, positivamente, os nossos rendimentos, sobretudo os que trabalham por conta de outrem, que é como quem diz a classe média.
E todos sabemos que é a classe média que tem sustentado o país. É justo, por isso, que seja o IRS a sofrer o primeiro impacto na redução dos impostos. Até porque despenalizaria, de algum modo, quem mais trabalha.

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